Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos bombardearam alvos em Caracas e em outras áreas da Venezuela, invadiram o complexo onde estava Nicolás Maduro e o levaram, com a mulher, Cilia Flores, para Nova York, onde ambos passaram a responder a acusações federais de narcoterrorismo e tráfico de cocaína 1,3. A operação, batizada pelo governo americano de Absolute Resolve 1, retirou à força do próprio país um governante em exercício para julgá-lo em território americano, algo que remete ao precedente do Panamá, em 1989. Por isso o episódio abriu o ano como o principal fato político internacional: pôs em xeque a proibição do uso da força prevista na Carta da ONU e redefiniu a relação dos EUA com a América Latina.

A operação e o estágio do processo

Segundo o relato reunido pela Al Jazeera, Donald Trump autorizou a ação na noite de 2 de janeiro; helicópteros pousaram no complexo de Maduro pouco depois das 2h, horário local, e o líder venezuelano embarcou no navio USS Iwo Jima antes das 5h, antes de ser levado a uma base aérea no estado de Nova York 1. Cerca de 150 aeronaves participaram da investida inicial, destinada a neutralizar as defesas aéreas, e mais de dez locais foram atingidos 1,3. Trump anunciou o resultado em rede social e afirmou que os EUA iriam "administrar" o país até uma transição considerada segura 1,3.

O custo humano foi informado sobretudo pelo lado venezuelano. Em 17 de janeiro, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, elevou para 47 o número de militares venezuelanos mortos e citou 83 vítimas no total; Cuba informou a morte de 32 de seus militares, alguns da escolta pessoal de Maduro 2. Esses números não tiveram verificação independente nas fontes consultadas e devem ser lidos como dados oficiais de Caracas e Havana.

Dois dias após a captura, a vice-presidente Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina pela Sala Constitucional do Tribunal Supremo 1,3. No plano judicial, Maduro e Flores declararam-se inocentes na primeira audiência. Em julho, o juiz federal Alvin Hellerstein, de Manhattan, marcou o julgamento para 1º de junho de 2027 5. No início de setembro, a defesa pediu o arquivamento da denúncia sob o argumento de imunidade de chefe de Estado; a promotoria tinha prazo até 2 de outubro para responder, e a audiência sobre o pedido foi marcada para 17 de novembro 5,6. Maduro é réu em ação penal, não condenado; as acusações ainda não foram julgadas.

Contexto

A captura coroou meses de escalada militar americana no Caribe, justificada por Washington como combate ao narcotráfico. Washington já não reconhecia a legitimidade de Maduro desde 2019, o que, segundo avaliação de especialistas relatada pela Al Jazeera, enfraquece o pedido de imunidade feito depois pela defesa 6. No Conselho de Segurança, reunido em caráter de emergência em 5 de janeiro a pedido da Colômbia, o embaixador americano Mike Waltz defendeu a ação como uma operação de aplicação da lei 4. O secretário-geral António Guterres disse estar profundamente preocupado com o desrespeito às regras do direito internacional e falou em precedente perigoso 2,4. Segundo o Security Council Report, os EUA não enviaram ao Conselho a carta de legítima defesa prevista no artigo 51 da Carta, e Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha rejeitaram a ação; China e Rússia a classificaram como agressão 3.

Análise

O ganho alegado por Washington é concreto em um ponto: um governante cuja legitimidade os EUA não reconheciam deixou o poder e responderá a um tribunal com garantias processuais. O custo, porém, é institucional e de longo prazo. A justificativa apresentada, a execução de um mandado de prisão, não encontra amparo nas exceções que o direito internacional admite para o uso da força, e a ausência da comunicação formal ao Conselho de Segurança indica que nem o governo americano tentou enquadrá-la como legítima defesa 3. Se a captura de um chefe de Estado estrangeiro por força armada vira instrumento de política penal, o argumento passa a estar disponível para outras potências.

Há ainda uma contradição de resultado. A queda de Maduro não produziu, até agora, uma transição democrática. O poder ficou com a vice-presidente do próprio chavismo, e na Assembleia Geral da ONU, em 23 de setembro, Delcy Rodríguez prometeu eleições sem indicar data 6. A declaração de Trump sobre empresas petrolíferas americanas reconstruírem a infraestrutura do país 1 reforça a leitura de que interesses econômicos pesaram na operação ao lado do discurso antidrogas. A evidência sobre as mortes é frágil, porque depende de fontes governamentais venezuelanas e cubanas.

Conclusão

A operação de 3 de janeiro atingiu seu objetivo imediato, mas o fez à margem das regras que os próprios EUA ajudaram a construir. Quase nove meses depois, o saldo verificável é um processo penal em curso, com julgamento previsto só para 2027, e uma Venezuela governada pelo mesmo grupo político, sem calendário eleitoral. Julgada pelo critério da democratização, a intervenção ainda não entregou resultado.

O que acompanhar

A audiência de 17 de novembro sobre o pedido de imunidade definirá se o processo segue para o julgamento de junho de 2027 5,6. No plano político, o marco a acompanhar é a fixação de uma data eleitoral pelo governo interino, ainda inexistente 6.