Em 7 de maio de 2026, eleições locais na Inglaterra e eleições para os parlamentos autônomos da Escócia e do País de Gales impuseram ao Partido Trabalhista, que governa o Reino Unido, uma das piores derrotas de sua história recente 7,8. Em Gales, o partido perdeu o governo que ocupava desde 1999 e caiu para o terceiro lugar 3,4. Na Inglaterra, perdeu cerca de 1.500 vereadores 7. A votação desencadeou a crise interna que levaria Keir Starmer a anunciar sua renúncia em 22 de junho 9. Importa por um motivo que vai além do calendário britânico: num dos sistemas partidários mais estáveis da Europa, os dois partidos tradicionais perderam espaço para nacionalistas, para a direita populista do Reform UK e para os Verdes.

Um mapa redesenhado em três frentes

No País de Gales, o Plaid Cymru, partido nacionalista galês, conquistou 43 das 96 cadeiras do Senedd, o parlamento galês. O Reform UK ficou com 34, e os trabalhistas com 9 3. A primeira-ministra Eluned Morgan perdeu a própria cadeira, a primeira chefe de um governo no Reino Unido a ser derrotada no cargo, e renunciou à liderança trabalhista galesa minutos depois 4. Sem maioria (seriam necessárias 49 cadeiras), Rhun ap Iorwerth anunciou um governo minoritário apoiado em cooperação caso a caso 3. Foi eleito primeiro-ministro pelo Senedd e empossado em 12 de maio 5.

Na Escócia, o Partido Nacional Escocês (SNP) manteve o primeiro lugar, com 58 das 129 cadeiras, sete a menos que a maioria. Trabalhistas e Reform empataram em 17 cadeiras, e foi a primeira vez que o Reform elegeu representantes no Parlamento escocês 1,2. O comparecimento caiu para 53,2%, contra 63,5% em 2021 2.

Na Inglaterra, a contagem parcial publicada pelo Guardian três dias depois indicava que o Reform havia ganhado mais de 1.300 cadeiras municipais e o controle de 14 conselhos, e que os Verdes também tinham avançado 6. Segundo o LabourList, os trabalhistas perderam o controle de mais de 30 conselhos 7.

Contexto

As consequências apareceram em dias. Em 15 de maio, 97 deputados trabalhistas pediam publicamente que Starmer renunciasse ou fixasse um prazo para sair, enquanto 111 assinavam uma declaração de apoio ao primeiro-ministro 7. Em 14 de maio, o ministro da Saúde, Wes Streeting, deixou o governo. Na carta de demissão, escreveu que, pela primeira vez, havia nacionalistas no poder em todos os cantos do Reino Unido 8. A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Michelle O'Neill, do Sinn Féin, reuniu-se com dirigentes do SNP e do Plaid e afirmou que, pela primeira vez, três chefes de governo nacionalistas e pró-independência estariam no cargo ao mesmo tempo 12.

Starmer resistiu por mais de seis semanas. Em 22 de junho, depois de Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester, voltar à Câmara dos Comuns numa eleição suplementar, anunciou que deixaria a liderança do partido 9. Burnham sucedeu Starmer na liderança e assumiu como primeiro-ministro em 20 de julho 10,11. Starmer, no cargo desde 5 de julho de 2024, deixou Downing Street como o primeiro-ministro trabalhista de mandato mais curto 9.

Análise

O resultado expõe um problema que antecede o governo Starmer. A fragmentação favorece partidos que se apresentam como ruptura: os nacionalistas de Gales e da Escócia, o Reform e, em áreas mais jovens e com mais inquilinos, os Verdes 6. Os dois partidos que alternaram o poder por um século ficaram sem uma base eleitoral majoritária reconhecível.

As causas imediatas aparecem, nas fontes consultadas, como desgaste do governo central. O próprio Streeting citou decisões impopulares, como o corte do auxílio de inverno para calefação 8, e a reportagem da BBC sobre Morgan descreve a marca trabalhista nacional como um peso para a campanha galesa 4. É preciso cautela, porém. Eleições locais e autônomas têm comparecimento menor e servem muitas vezes como voto de protesto, o que torna arriscado projetar esses números para uma eleição geral.

O custo institucional também precisa ser medido. A troca de primeiro-ministro sem eleição geral é legítima no sistema parlamentar britânico, mas foi a sétima desde 2016, segundo a BBC 9. A instabilidade crônica reduz a capacidade de qualquer governo executar políticas de longo prazo.

Quanto às evidências, os resultados da Escócia vêm do registro oficial do Parlamento escocês. A posse em Gales consta de comunicado do governo galês. Os números da Inglaterra vêm de contagens jornalísticas feitas durante a apuração e por isso aparecem aqui em ordem de grandeza, não como totais oficiais.

Conclusão

As eleições de 7 de maio foram o fato político internacional mais consequente do mês porque transformaram um mau resultado eleitoral em mudança de governo em três níveis: Gales trocou de partido no poder pela primeira vez desde a criação de seu parlamento, a Escócia confirmou a força nacionalista e o Reino Unido trocou de primeiro-ministro dez semanas depois. O que os números não sustentam é a leitura de um realinhamento definitivo. Isso depende de a fragmentação se repetir numa eleição geral, que ainda não ocorreu.

O que acompanhar

O próximo marco verificável é a capacidade do governo minoritário de ap Iorwerth de aprovar seu primeiro orçamento no Senedd e o desempenho do governo Burnham nas pesquisas e nas próximas eleições suplementares, que vão indicar se a troca de liderança conteve a perda de votos trabalhistas.