Em 17 de junho de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, assinaram à distância um memorando de entendimento para encerrar a guerra que começara em 28 de fevereiro com ataques americanos e israelenses ao Irã 1,2. Trump assinou durante um jantar com Emmanuel Macron no Palácio de Versalhes, ao fim da cúpula do G7 na França; Pezeshkian assinou em Teerã; e o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, assinou como mediador 1,2. O documento importava muito além da região: previa a reabertura do Estreito de Ormuz, rota de parte relevante do petróleo mundial, e o fim do bloqueio naval americano aos portos iranianos 3,4. Três semanas depois, a trégua havia desmoronado 5,2.
O que o memorando previa
O texto de 14 pontos, lido por um alto funcionário americano a jornalistas e publicado na íntegra pela CNN e pela Al Jazeera, era um acordo-quadro e não um tratado de paz 3,4. As partes declaravam o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano, e se comprometiam a negociar um acordo final em até 60 dias, prorrogáveis por consenso 3.
Na parte operacional, os Estados Unidos começariam a desmontar o bloqueio naval ao assinar e o encerrariam em até 30 dias. O Irã garantiria passagem a navios comerciais, sem cobrança, por 60 dias, e removeria minas e obstáculos no estreito 3,4. Washington também se comprometia a emitir imediatamente licenças para a exportação de petróleo iraniano enquanto as sanções não fossem encerradas, a liberar fundos iranianos congelados e a montar com parceiros regionais um plano de reconstrução de pelo menos 300 bilhões de dólares 3,4.
O núcleo do conflito ficou para depois. O Irã reafirmou que não produziria armas nucleares, e o destino do estoque de urânio enriquecido seria definido num mecanismo futuro, com a diluição no próprio país, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica, como método mínimo 3. O fim das sanções teria calendário fixado no acordo final, que seria endossado por resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU 3,4.
A cerimônia estava prevista para a sexta-feira, 19 de junho, na Suíça, e foi antecipada 3,6,1. No mesmo dia 17, Trump avisou que, se não gostasse do resultado, os Estados Unidos voltariam a bombardear 6.
Contexto
A guerra começou em 28 de fevereiro. Um primeiro cessar-fogo foi firmado em 8 de abril, e o fracasso da rodada de negociações em Islamabad, dias depois, levou ao bloqueio naval americano 2. Entre abril e junho, a mediação ficou principalmente com o Paquistão, com participação do Catar 2.
As reações ao texto foram divididas. Os líderes do G7 o chamaram de oportunidade histórica para impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear. Em Israel, um ex-assessor de Benjamin Netanyahu e o líder da oposição, Yair Lapid, o criticaram por aliviar a pressão econômica sobre Teerã sem resolver a questão nuclear 1. Nos Estados Unidos, o senador republicano Lindsey Graham passou a apoiar a assinatura, enquanto o democrata Adam Schiff falou em capitulação 1.
O desfecho veio rápido. Em 8 de julho, depois de ataques iranianos a navios comerciais em Ormuz e de bombardeios americanos na noite anterior, Trump disse, à margem da cúpula da Otan em Ancara, achar que o memorando estava acabado 5. O governo iraniano acusou Washington de violar quase todos os pontos do acordo em 25 dias, e em meados de julho os dois lados trocavam ataques que atingiam também o Catar, um dos mediadores 2. O prazo de 60 dias para o acordo final terminaria em meados de agosto. Esta apuração não encontrou registro de que ele tenha sido assinado.
Análise
O memorando teve um mérito concreto e limitado: interrompeu, ainda que por pouco tempo, uma guerra que fechara uma das rotas marítimas mais sensíveis do mundo, e deu à navegação um alívio imediato. A CNBC registrou petroleiros iranianos cruzando o bloqueio no próprio dia 17, a primeira saída do tipo em dois meses 6.
O desenho, porém, trazia fragilidades visíveis desde a assinatura. Os benefícios econômicos para o Irã eram imediatos, como licenças para exportar petróleo, enquanto as concessões sobre o programa nuclear ficavam para uma negociação posterior. A sequência era favorável a Teerã e politicamente difícil de sustentar em Washington. Além disso, o controle de Ormuz ficava remetido a conversas entre o Irã e Omã 3, embora, segundo um analista ouvido pela Al Jazeera, Teerã trate o estreito como ativo estratégico do qual não pretende abrir mão 2. Analistas ouvidos pela Al Jazeera observaram que os mediadores não tinham meios para fazer cumprir o que ajudaram a negociar 2.
A qualidade da evidência também tem limites. O texto conhecido é a versão lida por um funcionário americano. Quando foi publicado, autoridades iranianas não haviam confirmado essa redação, e versões preliminares divulgadas antes tinham diferenças de linguagem 4,3. Isso dificulta atribuir a ruptura de julho a uma violação específica de cláusula: cada lado acusou o outro, e as fontes consultadas não permitem arbitrar essa disputa.
Conclusão
O memorando de 17 de junho foi o acontecimento internacional de maior impacto do mês, porque foi a primeira tentativa formal, assinada pelos presidentes dos dois países, de encerrar uma guerra com efeitos econômicos globais. Durou pouco: 21 dias depois, o próprio signatário americano dizia considerá-lo encerrado. A lição verificável é estrutural. Um acordo que entrega alívio imediato e adia o tema central depende de confiança mútua e de um mecanismo de fiscalização, e nenhum dos dois existia quando a trégua foi posta à prova no estreito.
O que acompanhar
O próximo marco verificável é a retomada formal de negociações com mediação de Paquistão, Catar ou Omã, e qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o conflito ou sobre a navegação em Ormuz, que o memorando previa como garantia do acordo final.
