Na terça-feira, 7 de julho de 2026, ataques iranianos a três navios comerciais no Estreito de Ormuz levaram os Estados Unidos a bombardear mais de 80 alvos em território iraniano na madrugada seguinte, segundo o Comando Central americano (CENTCOM) 1,2. A resposta encerrou, na prática, o memorando de entendimento assinado em 17 de junho para pôr fim à guerra entre os dois países. O episódio importa porque devolveu ao centro do conflito a passagem marítima por onde circula parte relevante do petróleo e do gás negociados no mundo, com efeito imediato sobre preços de energia 1,2.
Do memorando ao colapso em uma semana
O memorando de 17 de junho previa um processo de negociação de 60 dias, a retomada da navegação comercial em Ormuz em níveis anteriores à guerra, a dispensa de sanções sobre exportações iranianas de petróleo, o desbloqueio de ativos e a suspensão dos combates, inclusive no Líbano 1. Três semanas depois, Teerã atacou embarcações que transitavam por rota não autorizada pelo Irã. Entre os navios atingidos estavam o Al Rekayyat, transportador de gás natural liquefeito de bandeira do Catar, e o petroleiro saudita Wedyan 1,2.
O CENTCOM informou ter atingido defesas antiaéreas, redes de comando, radares costeiros, capacidade antinavio e mais de 60 embarcações rápidas da Guarda Revolucionária, com o objetivo declarado de reduzir a capacidade iraniana de atacar o comércio internacional 1,2. Washington também reimpôs sanções sobre novas vendas de petróleo iraniano 1,2. O presidente Donald Trump, que participava da cúpula da OTAN em Ancara, disse, segundo a Al Jazeera, que considerava o memorando encerrado 1,2. A Guarda Revolucionária afirmou ter atacado alvos militares americanos no Bahrein e no Kuwait; essa alegação de resultado não foi verificada de forma independente nas fontes consultadas 1.
Os mercados reagiram no mesmo dia: o Brent subiu entre 5,5% e 6%, conforme o veículo, chegando a cerca de US$ 78 por barril 1,2.
Os ataques americanos se repetiram em noites seguidas ao longo do mês. Depois da morte de militares americanos em ataque atribuído ao Irã contra uma base na Jordânia, Washington lançou novas ondas de bombardeio 3,4. Até 26 de julho, quatro militares americanos haviam morrido e 207 ficado feridos desde 7 de julho, segundo levantamento da Fox News 3. Naquela data, os ataques foram colocados em suspenso, enquanto o bloqueio naval americano na região de Ormuz permanecia em vigor 3.
Contexto
A guerra de 2026 já havia produzido uma mudança de comando em Teerã: o funeral do líder supremo Ali Khamenei, morto em ataque americano, reuniu multidões no início de julho, e Mojtaba Khamenei assumiu a função 5,3. O memorando de junho, portanto, não era uma reconciliação, mas uma pausa negociada entre adversários que continuavam a disputar o controle do estreito. As fontes consultadas registram que cada lado acusou o outro de violar o texto: Teerã sustentava ter o direito de administrar a navegação em Ormuz; Washington tratou os ataques aos navios como ruptura do acordo 1,2.
O conflito também se espalhou. Em julho, líderes houthis no Iêmen anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, ameaçando o estreito de Bab al-Mandab 4. Essa informação consta de uma única origem entre as consultadas.
Análise
O colapso expôs uma fragilidade de desenho. O memorando trocava alívio de sanções por normalização da navegação, mas não definia de forma aceita por ambos quem controla o tráfego em Ormuz. Um acordo que deixa em aberto justamente o ponto em disputa transfere o conflito para a primeira manobra de interpretação, e foi isso que ocorreu.
Do lado americano, a resposta militar restabeleceu a dissuasão no curto prazo, mas teve custo visível: baixas, alta de combustíveis (a gasolina nos Estados Unidos chegou à média de US$ 4,09 por galão no fim de julho 3) e o retorno a um ciclo em que sanções e bombardeios substituem a mesa de negociação. Do lado iraniano, atacar navios de terceiros países, inclusive de Catar e Arábia Saudita, ampliou o número de prejudicados e enfraqueceu a alegação de que Teerã apenas exercia soberania.
Há limites na evidência. Parte dos números de baixas vem de contagens de veículos de imprensa, não de balanço oficial consolidado, e as alegações de dano feitas por cada lado não foram verificadas de forma independente.
Conclusão
A ruptura de 7 e 8 de julho mostrou que o memorando de junho funcionava como trégua, não como solução. Sem uma regra comum para a navegação em Ormuz, qualquer acordo dependeria da boa vontade de partes que já haviam demonstrado disposição para usar o estreito como instrumento de pressão.
Os meses seguintes confirmaram o diagnóstico. Em agosto, Irã e Omã chegaram a um arranjo preliminar de corredores de navegação, condicionado por Teerã a exigências dirigidas aos Estados Unidos, enquanto o bloqueio americano seguia ativo 6,7. O prazo de 60 dias do memorando expirou sem renovação pela Casa Branca, segundo o noticiário de meados de agosto 8. Em setembro, a cúpula do BRICS em Nova Délhi limitou-se a pedir máxima contenção às partes 9.
O que acompanhar
O marco verificável é a eventual adesão americana ao arranjo Irã-Omã para Ormuz e o levantamento, ou não, do bloqueio naval aos portos iranianos. Sem esses dois passos, a navegação no estreito continuará sujeita a decisões militares, e não a regras acordadas.
