O primeiro turno da eleição presidencial de domingo (4) terminou sem vencedor: o senador Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 45,16%, e os dois voltam às urnas em 25 de outubro 1,2. A totalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), concluída na madrugada de segunda-feira (5), registrou ainda abstenção de 21,08% do eleitorado, a maior desde 1998 2,3,11. Os números definem quem disputa a Presidência, mas também o tamanho da base sobre a qual o próximo governo será eleito e terá de operar.

O resultado oficial

Com a apuração encerrada, Flávio Bolsonaro somou 56.104.503 votos, e Lula, 53.879.538 2. Às 23h21 de domingo, com 99,99% das urnas totalizadas, a Agência Brasil já registrava os mesmos percentuais, 47,03% e 45,16% 1. A diferença final entre os dois é de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual dos válidos.

Pela Constituição, é eleito no primeiro turno o candidato que obtiver a maioria absoluta dos votos válidos, isto é, excluídos brancos e nulos. Nenhum dos dois atingiu esse patamar, o que levou ao segundo turno marcado para 25 de outubro 1.

Augusto Cury (Avante) ficou em terceiro lugar, com 3.448.569 votos (2,89%) 2,6. Renan Santos (Missão) teve 2.675.887 votos (2,24%), e Ronaldo Caiado (PSD), 2.605.148 (2,18%) 2,7. Romeu Zema (Novo) recebeu 326.488 votos (0,27%); os outros seis candidatos somaram, juntos, menos de 0,25% 2.

Dos 158,7 milhões de eleitores aptos, 125.275.835 compareceram, o equivalente a 78,92% 2,3. A abstenção atingiu 33.469.667 pessoas (21,08%) 2,3,11. Os votos em branco foram 2.300.798 (1,84% dos votos registrados) e os nulos, 3.674.249 (2,93%) 2,3,4. Os votos válidos somaram 119.300.788, cerca de 95,2% dos que compareceram.

Na Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 dos 513 deputados, a maior bancada da Casa; o PT elegeu 70 deputados e, somado aos aliados de federação (PCdoB e PV), chega a 88; a federação União Brasil–PP terá 87; o PSD, 43; o Republicanos, 41; e o MDB, 36 8,9. No Senado, foram renovadas 54 das 81 cadeiras, e o PL também elegeu o maior número de senadores, mas as contagens publicadas por partido ainda divergem entre veículos e por isso não são reproduzidas aqui 10.

Contexto

O eleitorado apto, segundo o TSE, era de cerca de 158,7 milhões de pessoas 3. A abstenção vem subindo em todas as eleições gerais desde 2006: foi de 16,75% naquele ano, 18,12% em 2010, 19,39% em 2014, 20,33% em 2018 e 20,95% em 2022, segundo a série reunida pela Gazeta do Povo a partir de dados do TSE 3. O índice de 2026 só fica abaixo do registrado em 1998, de 21,5% 5.

O segundo turno de 25 de outubro valerá para a Presidência e para os governos estaduais em que nenhum candidato obteve a maioria absoluta dos válidos 1.

Análise

O primeiro dado relevante é a margem. Uma diferença de 1,87 ponto percentual, ou 2,2 milhões de votos, é inferior à soma dos votos dados aos demais candidatos, que chegou a 9,3 milhões, e muito inferior ao contingente de ausentes, de 33,5 milhões. Isso não autoriza nenhuma projeção sobre o segundo turno: transferência de votos não é automática, e os resultados do primeiro turno não indicam como cada eleitor de outro candidato, ou cada ausente, se comportará em 25 de outubro. O que os números mostram, com segurança, é que nenhum dos dois finalistas alcançou maioria e que o resultado final depende de eleitores que não escolheram nenhum deles no domingo.

O segundo dado é a participação. Os votos válidos corresponderam a 95,2% de quem compareceu, proporção alta, o que indica que brancos e nulos, somados em 4,77%, não foram um fenômeno de massa. O problema está antes da urna: mais de um em cada cinco eleitores aptos não votou. Medido sobre o eleitorado total, o primeiro colocado foi escolhido por cerca de 35,3% dos aptos, e o segundo, por 33,9%. Essa diferença entre a maioria dos válidos e a base do eleitorado não afeta a legitimidade jurídica do resultado, que segue a regra constitucional, mas é um indicador de engajamento que a série histórica mostra em piora contínua há duas décadas. A totalização, porém, não separa as ausências de quem tem voto facultativo, como os maiores de 70 anos, das demais.

O terceiro dado é institucional. Com 121 cadeiras, o PL ocupará 23,6% da Câmara, longe das 257 necessárias para maioria absoluta e das 308 exigidas para emendas constitucionais. Nenhuma legenda ou federação terá sozinha condições de aprovar a agenda do Executivo, seja qual for o eleito. A composição definida em 4 de outubro já está dada e independe do segundo turno; quem vencer em 25 de outubro governará com uma Câmara em que a construção de maioria passará necessariamente por PSD, Republicanos, MDB e pela federação União–PP.

Conclusão

O resultado oficial é inequívoco quanto ao essencial: Flávio Bolsonaro terminou à frente, nenhum candidato obteve maioria absoluta e haverá segundo turno entre ele e Lula. A totalização foi concluída na madrugada seguinte à votação. Os números não permitem conclusões sobre o vencedor de 25 de outubro; permitem afirmar que a disputa será decidida por uma margem estreita de eleitores, num cenário de abstenção recorde em quase três décadas e de Congresso fragmentado.

O que acompanhar

O segundo turno ocorre no domingo, 25 de outubro, para presidente e para governador nos estados em que nenhum candidato obteve maioria absoluta. O próximo dado oficial verificável será a totalização do TSE nessa data, incluindo a abstenção, que permitirá medir se a tendência de ausência se repete ou se reverte numa disputa com apenas dois nomes. A diplomação dos eleitos e a consolidação oficial das bancadas do Senado por partido também devem ser acompanhadas.